terça-feira, 25 de março de 2008

Quanta Saudade!

Nem sei por onde começar, aliás, nem sei por que começar. Mas algo dentro de mim me obriga a escrever-desabafar. O que sinto é que a saudade às vezes tem apertado tanto. Por uns instantes eu acho que já superei o pior momento, mas aí vejo a minha irmã sofrendo e não consigo me controlar. Tudo tem sido tão triste desde que a minha sobrinha partiu, tudo tem sido tão sem sentido e explicação. Não vou mais à chácara, não participo da maioria das coisas que ela gostava, isso para não ter na visão a sua ausência. Uma amiga me disse que “parece que não tem fim”, e ela conseguiu transcrever em tão poucas palavras aquilo que estou a sentir. Pensamentos desconexos, saudade inexpugnável. Imagino que com esse comportamento não estarei ajudando em nada na evolução da minha queridinha, mas não sou um homem de ferro e estou para explodir. Vejo minha mãe se definhando de saudades, minha família toda está abalada e parece não haver solução.
Rezo, peço a Deus para iluminar o caminho da minha “Raulinha”, às vezes sonho com ela, mas isso tudo é insuficiente.
Até as notícias boas não são capazes de me alentar. Agora, por exemplo, sei que serei pai. Dá pra imaginar o que isso significa?! É um momento único da minha vida, minha primogênita está a caminho, mas está faltando algo, porque sei que quem mais iria gostar dessa novidade era ela. E o que fazer?
Pode parecer terra-a-terra, pode soar como um choro sem-sentido, ante o lapso de tempo que já se foi, mas, o que posso concluir é que, na primeira fase a gente fica tão transtornado que na realidade estamos sendo tratados e cuidados por verdadeiros anjos da guarda, espíritos de luz, a tristeza é doentia.
Num segundo momento, ao percebermos que a vida continua, tento retomar a vida e até que consigo, os negócios não param, a rotina das pessoas continua e a nossa própria vida continua, ou pelo menos o que restou dela.
Aí vem a terceira fase, a que estou vivenciando agora, é terrível, porque depois da rotina, a realidade da ausência bate à sua porta e você não tem de onde tirar forças.
Como agir como sempre fiz, ou seja, acorrer à minha mãe ou irmã... elas estão sofrendo infinitamente mais do que eu, como poderia ser tão injusto e lhes pedir ajuda? Essa atitude, na realidade, somente aumentaria o sofrimento de ambas.
Poderia, então, buscar conselhos junto à minha amada, mas ela está vivenciando um momento tão mágico, que é a gravidez, que eu não me acho no direito de contaminar essa graça divina com minha tristeza.
O que fazer??
Vou ao orkut, no vã desespero de que ali materializarei um contato com a minha neguinha, quanta tolice... vejo suas fotos e as mensagens da “sua galera” e isso só me traz mais angústia ainda.
O que posso garantir é que a vida é realmente áspera, durante os meus primeiros anos de vida, minha família era uma festa só, tendo como mestre de cerimônias o meu querido pai, este realmente nunca deixava a peteca cair, como pode uma pessoa ser tão feliz, mesmo tendo experimentado das mesmas agruras que agora me corroem?
Aos 17 perdi esse herói, mas eu era tão imaturo ainda, a vida era tão pulsante naquela época e a noção de responsabilidade tão diminuta, que o sofrimento foi incomparavelmente menor, além do que a ordem natural das coisas foi respeitada, o correto é o filho enterrar o pai; não o contrário.
Aos vinte e poucos anos vem a época da maturação do indivíduo, pelo menos é o que eu pensava, atuação profissional, compromissos realmente sérios, inclusive de ordem amorosa, culminando no casamento.
Até agora a vida segue com os seus percalços, mas, de repente (e isso não é figura de linguagem) foi de repente mesmo, a gente vê uma alegria que é marca registrada da família ruir, desmoronar.
Por mais forte que eu pretenda ser, pois, sei das minhas responsabilidades; não consigo mais, a saudade está me destruindo nesse instante, a falta de ânimo é latente, nada mais me interessa, gostaria de pelo menos ajudar, pois, assim, sei que também o seria, mas nem isso tenho conseguido ultimamente.
Minha formação espiritual me informa que a missão da Laura chegou ao fim e que ela, inclusive, já está prestando ótimos serviços noutro plano.
Mas, minha ignorância é maior, meu desejo de senti-la, poder abraçá-la impedem que essa certeza doutrinária me conforte, sei que é egoísmo, sei que é falta de respeito até, mas também sei que sou fraco e essa fraqueza é sentimento absolutamente humano, sou humano, o que fazer?
Essas perguntas ainda ficarão ecoando por muito tempo, sei que um dia elas serão respondidas pela própria Laura, pessoalmente, mas infelizmente até lá terei que conviver com elas, não gostaria de experimentar isso, não gosto de experimentar isso.
Quando eu era criança, uma coisa que me intrigava era o fato de que os adultos eram muito sérios. Sempre me perguntava por que eles agiam daquela maneira, porque, obviamente, todos eles tinham sido crianças um dia e aquela época é tão sublime e alegre que eu achava impossível que isso não contaminasse o ser humano por toda a sua existência.
Depois de passar por esses baques, agora começo a entender que a alegria das crianças são efêmeras, são via de regra sepultadas com os nossos entes queridos, o que resta são momentos de alegria, mas alegria personalizante não mais há.
Logo, logo virá a velhice, como é que esta se dará?
Aquele garoto alegre, aquele adolescente feliz, o homem que irradiava sorrisos não são mais a mesma pessoa, não que isso seja reflexo da ausência; na realidade, isso é reflexo da consciência, do amadurecimento, por isso é que sempre serei fã incondicional do escritor Fernando Sabino, porque até hoje foi o único que nasceu homem e morreu menino...

4 comentários:

Anônimo disse...

Querido Jayme, apesar de achar que este post não necessita ser comentado, afinal você expressou de maneira muito clara, porém dolorosa, todos os questionamentos que qualquer pessoa tem a respeito da passagem, cá estou a comentá-lo. São perguntas, para mim pelo menos, que devemos esperar para serem respondidas pessoalmente. tem uma musiquinha que dá uma despretenciosa dica; "Tempo amigo, seja legal. Conto contigo, pela madrugada. Só me derrube no final."

Unknown disse...

tio,
impossivel não chorar lendo isso.
é um vazio tão grande e uma falta q não sabemos preencher.
excesso de saudade.
era minha parceira no truco e na vida.e será pra sempre. por isso
quero que saiba do meu carinho por sua familia e que estarei sempre por perto.

um grande beijo.


karol

Jayme Freitas disse...

Obrigado tanto ao PH, quanto à Karol, pessoas amadas que respeito muito.

Anônimo disse...

MUITA DOR NÉ MEU IRMÃO, MAS VAI CHEGAR O DIA QUE TEREMOS MEIOS DE FALAR DA NOSSA LAURINHA COM MENOS DOR, SAUDADE DEMAIS...